segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS"

(Die 3 Groschenoper)
Direção de G. W. Pabst, 1931
Texto de Bertolt Brecht
Adaptação de Béla Balàsz, Léo Lania & Ladislaus Vajda
Música de Kurt Weill
Foto (p & b) de Fritz A. Wagner
Elenco: Rudolf Forster, Carola Neher, Reinhold Schünzel, Lotte Lenya, Fritz Rasp, Valeska Gert,
Ernst Busch e outros.


Forster (Mackie), Schünzel & Carola Neher: o comissário de polícia entre os noivos na cerimônia.

"A Ópera dos Três Vinténs", de G.W. Pabst ("A Caixa de Pandora") é uma muito bem sucedida versão do espetáculo teatral de Bertolt Brecht, com música do imprescindível parceiro Kurt Weill
(o autor de "September Song", "Speak Low" e outras belezas). Consta que Pabst se surpreendeu com o comentário de Adolf Hitler de que o filme "convinha bastante à desmoralização do inimigo inglês", o que lhe rendeu um certo afeto por parte do Führer, que, não obstante, incluía sem que ele imaginasse o reverso da moeda. De fato, focaliza uma Londres decadente, cheia de miséria, assaltos
e corrupção, tendo um astucioso bandido, Mackie Navalha - o "Mack the Knife" da música - como ponte entre duas camadas sociais, a marginalidade e as autoridades constituídas. Brecht e, por conseguinte, Pabst traçam um perfil cínico e inteligente desses polos extremos, que convergem para acordos escusos entre a polícia e a bandidagem. E Pabst faz bom Cinema, embora oriundo do teatro.
A atriz e cantora Lotte Lenya (aqui ainda Lenja), a assustadora vilã de "Moscou contra 007" muito adiante e mulher de Kurt Weill na vida real, marca no papel secundário da prostituta Jenny, louca de amor pelo indiferente e mulherengo Mackie (muito bem defendido pelo ator Gustav Forster) - e, na verdade, todo o elenco principal atua com competência. Quando Mackie se vê na contingência de fugir para não ser pego, deixa sua mulher (Carola Neher), a filha do "fabricante" de mendigos (Fritz Rasp), cuidando de seus negócios e esta o faz prosperar, comprando um banco e com isso fazendo da
atividade de roubos e assaltos uma coisa superada.
"A Ópera dos Três Vinténs" importa ainda para dimensionar-se o talento de Pabst antes de aceitar as benesses do nazismo, quando perdeu seu prestígio e deixou de ter o controle autoral sobre seus trabalhos antes tão respeitados. Só veio a reerguer-se numa espécie de "mea culpa" em meados dos anos 50 e próximo ao fim de sua carreira, com "O Ato Final" (Der Letze Akt), onde mostrava os podres de Hitler, sobretudo na memorável seqüência da inundação de Varsóvia. Mas já era tarde para
voltar a ser o que era. 
Nos anos 80 teve uma adaptação brasileira irregular na "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, onde Jenny ("Geni") era um homossexual da periferia ("Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Maldita Geni !") na antiga Lapa. A comparação só beneficia mais o filme de Pabst, Brecht & Kurt Weill.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"CONTOS DA LUA VAGA"


(Ugetsu Monogatari)

Direção de Kenji Mizoguchi, 1953

Roteiro de Matsutaro Kawaguchi & Yushitesti Yoda

Foto (p & b) de Kazuo Miyakawa

Música de Fumio Hayasaka

Elenco: Masayuki Mori, Machiko Kyo, Kanuyo Tanaka, Sazae (Eitaro) Ozawa, Mitsuko Mito.


No Japão feudal do século 16, a guerra civil e suas conseqüentes barbáries obrigam dois modestos casais vizinhos a deixar suas casas e tentar novo caminho pelo mar. São eles um caprichoso oleiro (Masayuki Mori, o intérprete de "O Idiota"), um estouvado pretendente a samurai (Eitaro Ozawa) de armadura e espada compradas na feira e suas respectivas mulheres (a doce Kanuyo Tanaka e a mais ardente Mitsuko Mito). O mar, contudo, apresenta o perigo dos piratas e o grupo desiste de seu intento. Em breve o oleiro se acha vendendo suas belas peças de cerâmica para uma jovem nobre
(Machiko Kyo), seduzido por ela e, esquecendo-se da esposa e do pequeno filho, habitando seu solar,
onde com ela se casa e desfruta de incontáveis prazeres. A descoberta de que se deixou enfeitiçar por
um fantasma que, sendo do Mal, precisa ser exorcizado, faz despertar no homem seu arrependimento
e seu repúdio a tal situação, embrenhando-se na mata para tentar a volta a casa.
Kenji Mizoguchi, um dos mais respeitados nomes do Cinema japonês desde a era do silencioso, apóia
-se em duas ou três histórias sobrenaturais de um eminente especialista no gênero para este seu muito aplaudido trabalho. Ao mesmo tempo, coloca em vivas imagens a violenta realidade que é cenário do filme fora da "morada de sonhos" de cunho fantasmagórico, com a guerra civil propiciando saques, a dissolução de famílias e a prostituição de mulheres (de que é vítima, após ser rudemente violentada por rebeldes, a esposa do vizinho e amigo fanfarrão). Dois novos excelentes desempenhos, tanto de Masayuki Mori no protagonista como de Machiko Kyo no seu ambíguo papel mágico, consagram essa dupla proveniente do super clássico "Rashomon" (1950) de Akira Kurosawa, junto a um elenco harmonioso e soberbas fotografia (de Kaziro Miyagawa) e música (de Fumio Hayasaka), ambas de beleza tipicamente nipônica. Um filme certamente merecedor do prestígio que até hoje mantém.

    A volta ao lar: Genjuro, com orações de Buda no corpo, aturdido com acusações de ser um fugitivo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"A FACE DO OUTRO"

    O monstro e o médico (Tatsuya Nakadai & Eiji Okada) na concepção do talentoso Hiroshi Teshigahara.

    (Tanin no Kao)

    Direção de Hiroshi Teshigahara, 1966.

    Elenco: Tatsuya Nakadai, Eiji Okada, Eiko Muramatsu, Machiko Kyo, Etsuko Ichihara

    Bela ficção do cinema japonês, do realizador da então nouvelle-vague de lá e do inesquecível
    "A Mulher da Areia". Seu protagonista é o excelente Tatsuya Nakadai, descoberto por Akira
    Kurosawa ("Yojimbo", "Sanjuro") e orientado por este a substituir Toshiro Mifune quando da
    sentida separação de ambos após "O Barba-Ruiva" (1965), destacando-se em "Kagemusha" 
    e "Ran". Vítima de um acidente que o desfigurou. Nakadai procura um jovem psiquiatra (Eiji 
    Okada) que agora se dedica a minimizar os traumas de seus pacientes com enxertos sintéticos
    de membros danificados. Mas o caso de Nakadai é mais delicado - ele precisa de um rosto,
    para reconquistar a mulher (Machiko Kyo, de "Rashomon") e sua sólida posição social. Uma vez
    tentada com êxito uma máscara perfeita e usada com cuidado, a incomodidade de sua        
    preservação e as angústias do paciente quanto à sua identidade o conduzem a uma nova e mais 
    séria crise.
    Muitos se lembram de filmes como o americano "O Segundo Rosto" (também de 1966), de John
    Frankenheimer, ou mesmo do notável grand guignol francês "Os Olhos Sem Rosto" (1960), de
    Georges Franju, para discutir o tema da individualidade que Teshigahara coloca com inteligência,
    domínio cinematográfico e muita propriedade autoral. Dá margem, inclusive, para o ingresso de
    outros personagens - a esposa ardilosamente seduzida com a utilização da máscara, o casal de
    irmãos que cede ao impulso incestuoso - sem perder o prumo.

sábado, 8 de novembro de 2014

DOIS KUROSAWA MAL CONHECIDOS

    Toshiro Mifune e Masayuki Mori, notáveis na versão oriental do romance clássico de Dostoiewsky

    O IDIOTA (Hakuchi) - Direção de Akira Kurosawa, 1951  - Roteiro de Kurosawa & Eijiro Hanita
    - Elenco: Masayuki Mori, Setsuko Hara, Toshiro Mifune, Yoshiko Kuga, Chieko Higashiyama.
   Amante dos textos de Shakespeare, Dostoiewsky, Brecht e outros não japoneses, Akira Kurosawa
   logrou um grande êxito transportando-os para a tela, mas foi subestimado em seu próprio pais. Em
   1951, foi a vez do consagrado romance de Fyodor Dostoiewsky, filmado com surpreendente
   fidelidade na essência, ao lado de variações de cunho mais nipônico. Na iminência de ser fuzilado
   na Guerra, um homem (Masayuki Mori, em atuação comovente) escapa por milagre, mas adquire
   uma grande perturbação psíquica e uma espécie de epilepsia crônica. Isso não impede de vir a
   apaixonar-se mais tarde por uma bela concubina (Setsuko Hara) e tentar disputá-la com um amigo
   violento e irascível (Toshiro Mifune), seu amante, e conquistar o amor "difícil" de uma prima
   ciumenta ((Yoshiko Kuga), ambas o admirando por suas singulares bondade e pureza de coração.
   Contudo, a tragédia se instaura quando o bruto mata a desejada companheira.. Um dos filmes de
   Kurosawa menos conhecidos do público ocidental (apesar da repercussão de "Rashomon", sua
   obra-prima feita um ano antes), "O Idiota" se salienta na vigorosa filmografia do cineasta por sua
   dramaticidade mais intimista, sua perfeita construção e pelas esplêndidas performances do seu
   muito harmonioso elenco. A extrema generosidade e paixão do protagonista pelos seres humanos
   sugere a figura de Jesus, mas o roteiro insere algumas conotações budistas para cor local.

   O BARBA-RUIVA (Akahige), Akira Kurosawa, 1965 - Roteiro de Kurosawa e outros -                      Foto (p & b) de Asakasu Nasai & Takao Saito - Elenco: Yuzo Kayama, Toshiro Mifune, Terumi
   Niki, Tsutomo Yamazaki, Reiko Dan, Yoko Naito, Kyoko Kagawa.
   Este filme muito longo (185 minutos), com duas partes e até um intervalo, assinalou o fim da
   rica parceria de Kurosawa com seu ator favorito, Toshiro Mifune, infelizmente com danos para a
   longa amizade. Mifune é aqui um importante médico que cuida de enfermos da população carente
   na Tóquio do século 19 em condições precárias. Um jovem recém-formado (Yuzo Kayama), de
   boa família e estudos avançados, vai ter na clínica do chamado "Barba Ruiva" a contragosto,
   mostrando-se rebelde e inadaptável. A sucessão de casos delicados que acompanha com o médico,
   na função de seu assistente, aos poucos o vai transformando e o fazendo reconhecer no "Barba-
   Ruiva" um homem e um profissional de exceção. Pesa favoravelmente quanto a isso seu empenho
   em curar uma menina (Terumi Niki) de seu abismo mental, causado pelos maus tratos de que é
   vítima na casa de uma megera que a emprega. Irônica e maldosamente comparado por americanos
   imbecis de um "Plantão Médico" japonês, o filme, com sua narrativa episódica, flashbacks até
   dentro de flashbacks, no desenrolar dos diversos casos clínicos, pode não estar à altura de outros
   trabalhos maiores de Kurosawa, mas ainda assim apresenta uma visão convincente da infelicidade
   da população mais humilde, com algumas passagens tocantes e bons tipos como a menina (que fica
   meio encantada pelo jovem médico) e o garotinho ladrão (que tenta salvar a família da miséria). De
   qualquer modo, o habitual humanismo de Kurosawa não funciona aqui muito bem. A atriz Kyoko
   Kagawa (com Kurosawa em "Ralé") faz o breve e algo artificial papel da "Louva-Deus", a mulher
   louca que seduz e apunhala os homens a quem conquista. Bela foto em preto-e-branco.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"AQUELE CASO MALDITO"

    O inspetor-chefe (Pietro Germi) interroga a aflita jovem ex-criada (Claudia Cardinale) da vítima.

(Un Maledetto Imbroglio)

Direção de PIETRO GERMI

Roteiro de Pietro Germi e outros

Música de Carlo Rustichelli

Foto (p & b) de Leonida Barboni

Elenco: Pietro Germi, Claudia Cardinale, Claudio Gora, Franco Fabrizi, Eleonora Rossi Drago, Saro
              Urzì, Nino Castelnuovo, Cristina Gajoni.

Confusão num distrito policial italiano. Um assalto à casa de homossexual idoso é seguido de outro, agravado pelo assassinato de senhora casada (Eleonora Rossi Drago), estando seu marido (Claudio Gora) ausente. Inúmeras pistas e vários suspeitos - o noivo (Nino Castelnuovo) da criadinha da casa, (Claudia Cardinale), o próprio marido da madame, seu discutível "primo" malandrão (Franco Fabrizi), et al. - perturbam o íntegro inspetor-chefe (Pietro Germi) e seus auxiliares, com uma única
e inevitável solução.
Tiro certeiro do cineasta Pietro Germi no gênero "detective story" consagrado pelos americanos, mas
aqui ganhando um sabor peninsular. Germi, entretanto, com o sucesso de "Divórcio à Italiana"(1962)
se dedicaria a comédias satíricas de costumes ("Seduzida e Abandonada", "Alfredo, Alfredo"), todas a meu ver inferiores a este filme impecável. É a Itália na transição do néo-realismo para a trama burguesa moderna o que ao filme interessa mostrar. Com esplêndida música de Carlo Rustichelli (inserindo uma linda canção sua,"Sinnò me Moro", como tema cantado da personagem de Claudia Cardinale, além de um belo comentário dramático), sensível preto-e-branco de Leonida Barboni e Germi dominando sua técnica à perfeição, alinha-se um elenco harmonioso. Nele se salientam o ótimo Claudio Gora, uma Eleonora Rossi Drago pela primeira vez caracterizada de mulher mais velha, Franco Fabrizi, sempre à vontade em tipos cínicos e amorais, e um divertido Saro Urzì no veterano ajudante do inspetor. Muito bom e simpático nesse papel, Germi logo a seguir representaria um equivalente em "O Batom", curiosa estréia de Damiano Damiani como diretor. Final emocionante, com Cardinale correndo atrás do carro de polícia, envolvida em poeira e sendo deixada aos poucos pela câmera e pela dolência de "Sinnò me Moro".


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CRITIQUINHAS... (2)


O SALÁRIO DO MEDO (Le Salaire de la Peur), Henri Georges Clouzot, 1953. Quem pensa que o único suspense do cineasta francês Henri Georges Clouzot é o memorável "As Diabólicas" se engana. Dois anos antes ele surpreendia com o noir diferenciado deste thriller empolgante. Em paisagem primitiva da América do Sul, paraíso de foras-da-lei e contraventores de diversas espécies, quatro homens são designados por ordens americanas do transporte de nitroglicerina a outra região
de atividade petrolífera. São eles dois franceses (Yves Montand e o mais idoso Charles Vanel), um italiano gordo de bons músculos (Folco Lulli) e um alemão meio antipático (como sabe ser Peter van Eyck), viajando em dois caminhões. A arriscadíssima missão apresenta dificuldades e obstáculos vários, que os homens enfrentam por uma polpuda soma em dinheiro, com trágicas conseqüências.
Não promete muito o início, retratando os atrasados costumes do local exótico (músicas, danças e outros aspectos selvagens) ou o apego romântico-sensual de uma empregada branca (Vera Clouzot, mulher do diretor) por Montand. Mas o filme logo se levanta com o início da tarefa dos quatro e daí para frente é só adrenalina e suor na testa, com brilhante condução de Clouzot e excelentes desempenhos de Vanel, Lulli e do herói Montand. Vera Clouzot, ainda imatura (iria revelar-se em "As Diabólicas"), detém um papel fraco, embora esteja visualmente mais agradável. O filme é considerado com justiça um clássico do cinema francês e, muitos anos depois, Hollywood providenciou-lhe um remake dirigido por William Friedkin, provavelmente bem inferior.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CRITIQUINHAS A TOQUE DE CAIXA

Amigos, a dissolução do Orkut atordoou a todos os seus membros restantes (e que nem eram tão poucos assim). Eu, por exemplo, me ausentei do meu próprio blog, buscando uma alternativa. Outros fizeram sua transferência para as demais redes sociais, concorrendo para a lamentável separação de amigos e grupos. Mantive o blog para os que quisessem ainda se comunicar comigo, mas como me ausentei, isso também não funcionou muito bem e eu entendo. Destaco aqui a sugestão do membro/ seguidor/ bom camarada Anthero Luiz para uma tarefa um tanto mais leve para mim no momento - um pequeno resumo dos filmes que venho assistindo ultimamente. Assim, abraço a idéia do Anthero
como se abraçasse a ele próprio e vamos que vamos, obrigado.

A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (The Village of the Damned), Wolf Rilla, 1960. Misteriosa ocorrência num pequeno povoado mantém desacordada por horas a população. Quando todos despertam, algo mais estranho ainda - as mulheres locais estão grávidas ! Trata-se de uma invasão alienígena, onde crianças de outro mundo, com inteligência e percepção agudíssimas, desafiam um maduro professor (George Sanders) a destruí-las. Ressalte-se a interpretação do pequeno Martin Stephens (o garoto de "Os Inocentes") em outro papel marcante. Direção correta de Wolf Rilla e boa chance para o veterano George Sanders. Com Barbara Shelley na esposa do professor e mãe a contragosto do líder Stephens. Um bom e sofisticado filme de terror/ ficção.

    Martin Stephens (primeira fila, à extrema direita) e sua turminha de fedelhos mal intencionados.