quinta-feira, 16 de abril de 2015

"DESEJO QUE ATORMENTA"




(Senilità)

Direção de Mauro Bolognini, 1962

Roteiro de Goffredo Parise, Tullio Pinelli & Mauro Bolognini

Foto (p/b) de Armando Nannuzzi

Música de Piero Piccioni

Elenco: Anthony Franciosa, Claudia Cardinale, Philippe Leroy, Betsy Blair, Raimondo Magni,
             Nadia Marlowa, Franca Mazzoni, John Stacy.


Cardinale & Franciosa: uma paixão "impura" num dos melhores trabalhos de Mauro Bolognini no seu auge.


Trieste, anos 20. Um funcionário público solteirão, Emilio (Anthony Franciosa), inexperiente no amor, conhece e se apaixona perdidamente por Angiolina (Claudia Cardinale), linda jovem pobre
que ele idealiza como pura e honesta. Em encontros fugazes, que vão se tornando mais freqüentes,
esse amor respeitoso passa a ganhar o aspecto de uma obsessão, enquanto Emilio vai aos poucos se
decepcionando com o comportamento duvidoso da moça, ambígua e dissimulada, com uma relação
de conveniência com um senhor idoso e segredos acerca de si mesma. Os comentários ouvidos acerca da vida irregular de Angiolina o perturbam, sem que ele consiga pensar em perdê-la e chegando até mesmo a assumi-la como sua amante. No apartamento modesto que divide com a irmã mais velha,
Amalia (Betsy Blair), igualmente solitária e reprimida, costuma receber as visitas joviais de seu 
amigo Stefano (Philippe Leroy), formado nas Belas Artes, que também o alerta quanto à coqueteria suspeita de Angiolina, a quem gostaria de ter como modelo qualquer dia. Ocorre que Emilio se vê obrigado a dispensar a presença do amigo em casa, ao notar a paixonite insegura da irmã por Stefano.


Perplexo e magoado, Emilio descobre uma escultura óbvia no ateliê do amigo.


O agravamento da saúde da irmã desiludida, com o consumo abusivo de éter a conduz à morte, o que
talvez coincida com uma retomada de consciência de Emilio e seu rompimento com a amante, constatando ele que Angiolina consentiu em posar nua para Stefano.
Realizado em pleno Renascimento do cinema italiano - que curiosamente produzia, então, o pior (as
fantasias com halterofilistas) e, na certa, o melhor em filmes - "Senilità" dá continuidade à carreira vitoriosa de Bolognini no início da década de 60. Dela constam títulos como "A Longa Noite de Loucuras", sua obra-prima "O Belo Antônio" (ambos de 1959, quando se salientou como relevante cineasta), "Um Dia de Enlouquecer" (1960) e este impressivo e tocante "Desejo que Atormenta", com talvez as melhores interpretações de Franciosa (intenso, mas contido em seus excessos, já que simboliza a acomodação burguesa) e de Claudia Cardinale (bela sempre, misteriosa e sedutora) até hoje.. 
Betsy Blair, a sensível "namorada feia" de "Marty", dá conta de seu papel difícil com sabedoria e Philippe Leroy convence bastante como Stefano. Locações autênticas em Trieste captadas pela brilhante fotografia de Armando Nannuzzi e trajes e detalhes de época a cargo do mestre Piero Tosì. Impecável lançamento em DVD da Cult Classic.









domingo, 12 de abril de 2015

"A FALECIDA"


Direção de Leon Hirszman
Roteiro de Eduardo Coutinho sobre original de Nelson Rodrigues
Foto (p/b) de José Medeiros
Música de Radamés Gnatalli, com canção "Luz Negra" de Nelson Cavaquinho

Elenco: Fernanda Montenegro, Ivan Cândido, Paulo Gracindo, Nelson Xavier, Vanda Lacerda, Joel
Barcelos, Dinorah Brillanti, Hugo Carvana, Billy Davis, Virginia Valli.

Bom primeiro longa de Leon Hirszman ("Eles Não Usam Black-Tie", "São Bernardo"), assinalando
a estréia de Fernanda Montenegro no Cinema em personagem de Nelson Rodrigues. Ela é Zulmira, mulher pobre e frustrada, morando numa vila do subúrbio carioca com o marido sem emprego (Ivan Cândido). A desconfiança de que uma prima e vizinha - loura como lhe "predisse" certa cartomante esperta  (Vanda Lacerda) - quer vê-la morta, a leva a se fixar na idéia e, com isso, definha. Mas o seu sonho de vingança é ter um funeral de alto luxo. Realizar-se com a morte ante a insatisfação da vida é o tema nem tão provável, mas poderosamente obsessivo, o que é caro ao nosso ilustre dramaturgo. Se não depressivo (e é), "A Falecida" é certamente o mais mórbido Nelson levado às telas, o que não lhe subtrai os méritos. Com efeito, poucos de seus originais foram tão bem sucedidos como este (e citemos "O Boca de Ouro", de Nelson Pereira dos Santos e "Toda Nudez será Castigada", de Arnaldo Jabor, como bons resultados).

Fernanda na chuva: estréia perfeita

Cabe ressaltar a sensibilidade e o carinho com que Hirszman cuidou da direção do seu primeiro longa, ele vindo de curta-metragens, ainda mais cercado de uma equipe impecável.  E que sorte ter uma grande dama do Teatro como Fernanda Montenegro como protagonista. Ela é aquele assombro de atriz, feia na infeliz Zulmira e, adiante, bonita, ou fascinante, deixando-se molhar na chuva num rodopio de closes, e no seu flashback com o ex-amante rico (Paulo Gracindo). Este, num papel mais secundário e importante, não era ainda o grande ídolo global das novelas, mas já era grande e com um longo currículo de ator de rádio-teatro, animador de auditórios, comediante e astro da luminosa Rádio Nacional. A surpresa para mim é o mal conhecido e subestimado ator Ivan Cândido, excelente no marido que chantageia o ex-amante da mulher para obter a vultosa quantia do funeral, depois gastá-la e encomendar um enterro modesto. Muito boa fotografia de José Medeiros (com o prodigioso Dib Lutfi na câmera de mão) e boas, ainda, as participações de Nelson Xavier no agente funerário conquistador e da ótima Vanda Lacerda na sua breve "leitora" de cartas de baralho.

Fernanda & Gracindo, dupla genial reunida treze anos antes de "Tudo Bem", comédia de Arnaldo Jabor.





domingo, 15 de março de 2015

"INSPIRAÇÃO TRÁGICA"



(The Two Mrs. Carrolls)     
Direção de Peter Godfrey, 1947
Produção de Mark Hellinger
Roteiro de Thomas Job
Foto (p/b) de Peverell Marley
Música de Franz Waxman

Elenco: Humphrey Bogart, Barbara Stanwyck, Alexis Smith, Pat (Patrick) O'Moore, Ann Carter,Nigel Bruce, Anita (Sharp) Bolster, Isobel Elsom, Barry Bernard.


Bogart & Barbara: a nova Mrs. Carroll receia ter o mesmo destino da primeira.

Reconhecível como um thriller dos anos 40, com uma trama que toma emprestado situações de outros tantos (um psicopata insuspeito, o fantasma de sua primeira mulher numa pintura de sua autoria, a segunda esposa aos poucos desconfiando dele, uma possível nova candidata a substituí-la, um chantagista), "Inspiração Trágica" ainda se impõe como um filme bem cuidado e eficiente. Lembremos que se trata de uma produção de Mark Hellinger, que se especializou em diversos filmes noir ou meramente policiais ("Assassinos", "Brutalidade", "Cidade Nua" e outros) com comprovada competência. E assim temos um belo trabalho fotográfico em preto-e-branco, a música de Franz Waxman, dois intérpretes sabidamente capazes e, surpresa, uma boa chance para um diretor menor como Peter Godfrey, que a aproveita bem. Enquanto se descortina a personalidade doentia do ex-viúvo Mr. Carroll (Humphrey Bogart, sempre melhor como "mau") é quase impossível não ficar atento às inquietações de sua adorável e indefesa nova mulher (Barbara Stanwyck, aqui meiga e amorosa e a grande atriz de sempre), descobrindo as mentiras do marido, sua infidelidade e sobretudo seu passado de homicida, até um confronto final dos mais tensos com ele, que adentra seu quarto trancado, sinistramente pela janela. Alexis Smith, correta, tem um papel de menor relevo se insinuando como a socialite amante secreta e provável substituta de Barbara nos planos de Bogart. Muito boas participações da menina Ann Carter, bem natural na doce filha do primeiro casamento, e da governanta pouco simpática e algo atrevida, mas humana, de Anita Bolster (uma espécie de Agnes Moorehead em alguns de seus papéis). Das desapropriações do roteiro de outros filmes, guarda-se mais a de "Suspeita" (1941), de Alfred Hitchcock - não só nas aflitivas desconfianças da heroína, mas até no recurso do leite (marcante no suspense do mestre) servido pelo marido. Não obstante, é um espetáculo atraente e bem feito de um modo geral.

"Suspeita": o marido e o copo de leite.

 Barbara frente à sombria visão do "Anjo da Morte" pintada pelo esposo.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

"DE SALTO ALTO"

    O trio afiado de Almodóvar - Abril, Bosé & Paredes: individualidades complexas em confronto.

(Tacones Lejanos)
Direção e roteiro de Pedro Almodóvar, 1991 
Foto (cores) de Alfredo F. Mayo
Música de Ryüichi Sakamoto

Elenco: Victoria Abril, Marisa Paredes, Miguel Bosè, Féodor Atkine, Míriam Díaz Aroca, Ana
Lizarín, Cristina Marcos, Nacho Martínez, Bibi Andersen, Javier Bardem.

Um dos mais brilhantes filmes do imprevisível Almodóvar, talvez mesmo o seu melhor. Louco e injusto como a própria vida, é um misto de melodrama e tragicomédia criminal com engenhosa trama. O confronto de mãe e filha pequena que se separam por cerca de 15 anos quando a mãe (Marisa Paredes), cantora conhecida, abandona tudo em Madrid para se tornar uma estrela de Cinema no México. A filha (Victoria Abril quando cresce) é o produto da perda cedo do pai e do padrasto e do amor não correspondido pela vaidade da mãe estrela. Que a encontra mal casada com um safado ex-amante (Féodor Atkine), surgindo daí o assassinato deste. Quem fora a autora do crime é o que investiga o jovem comissário de polícia (Miguel Bosé, filho da atriz Lucia e do famoso toureiro Dominguín), mas que, para se virar, mantém três identidades diferentes, incluindo um transformista especializado no antigo repertório da cantora. Almodóvar se refere com carinho ao Bergman de "Sonata de Outono"- a filha desprezada pelo egoísmo da mãe - mas vai mais longe com humor negro e um retrato psicológico tocante de duas mulheres diferentemente infelizes, magnificamente desempenhadas por Victoria Abril e Marisa Paredes. Um belo filme do espanhol, aqui mais contido em suas extravagâncias de personalidade e que inaugura sua fase mais autoral e mais séria, sem perder   eventualmente seu humor surreal.

Poster mais raro e mais bonito de "De Salto Alto":



terça-feira, 23 de dezembro de 2014

"GEORGES MÉLIÈS - O PRIMEIRO MAGO DO CINEMA" (5 DVD'S)



Sem dúvida, o mais ambicioso e caprichado lançamento da Cult Classic e um presente de Natal perfeito. O chamado digistack (álbum com 5 DVD's) de Georges Méliès interessa, entre outras coisas, por ser a coleção de filmes curtos do grande ilusionista do Cinema, pioneiro do fantástico e da magia na tela. Abrindo com bom documentário de Georges Franju (de "Os Olhos sem Rosto") sobre o artista - "O Grande Méliès", creio que dos anos 50, com seu filho André, um quase sósia, em seu papel - prossegue o DVD com a arte de Méliès em muitas invenções, truques, efeitos e até algumas surpresas mais sérias (e estamos no final do século 19 !). Exemplos são uma superprodução de "Joana D'Arc" colorida à mão, a versão delirante do "Barba Azul" e (também a cores) uma apressada história da "Cinderella". O humor, sem nunca ser do gênero pastelão, contudo se encaixa melhor no resto, com técnicas primitivas que, com o tempo, vão se tornando mais aprimoradas e maduras. Mas já vi cerca de 60 curtas... e isso APENAS NO PRIMEIRO DVD !


"BOUDU SALVO DAS ÁGUAS"


     Boudu (Simon) e seu benfeitor (Granval): salvar um mendigo do Sena e ter de  pagar por isso...
     
     (Boudu sauvé des Eaux)
     Direção de Jean Renoir, 1932
     Roteiro de Jean Renoir & Albert Valentin
     Foto (p/b) de Georges Asselin
     Música (flauta) de Jean Boulet
     Elenco: Michel Simon, Charles Granval, Sévérine Lerczinska, Marielle Hainia, Jean Debret,
                  Max Dalban.

    A distribuidora Colecione Clássicos, relativamente nova na praça, vem brindando os amantes do Cinema com DVD's raros, inéditos e expressivos de seu acervo ainda modesto. Tal ocorre com esta saborosa comédia crítica de Jean Renoir de 1932, baseada em peça francesa e que nos chega em cópia cuidadosamente restaurada.  Mendigo sujo, cabeludo e barbudo (Michel Simon, magistral) em crise de tédio resolve se atirar ao rio Sena. É salvo de afogamento por misericordioso livreiro (Charles Granval) que o acolhe em sua casa.  Lá, onde atura uma mulher fútil e tipicamente burguesa (Marielle Hainia) e tem por amante sua jovem criada  (Sévérine Lerczinska), o patrão se aborrece com as constantes críticas a seu mal educado e incorrigível "hóspede", que, não obstante, seduz por uma noite sua esposa queixosa e ainda lhe arrebata a criadinha...  Com a leveza da flauta que se faz ouvir na trilha, Renoir compensa o risco de teatralismo do interior da casa com inúmeras tomadas ao ar livre, brincando alegremente com a câmera e os cenários naturais. E ninguém no elenco é páreo para Michel Simon, irresistível no seu mendigo de idéias próprias, mas todos o secundam muito bem.       O filme, desconhecido entre nós, teve um remake hollywoodiano de Paul Mazursky em 1986, pasteurizando (e muito) sua graça natural e espontânea com o nome de "Um Vagabundo na Alta Roda", mas em que seu principal deslize foi a incrível substituição de um ator como Michel Simon por Nick Nolte.  


   

                                                

"A CASA SINISTRA"


    (The Old Dark House)
    Direção de James Whale, 1932
    Roteiro de R.C. Sherriff & Ben W. Levy, com base em "Benighted" de J.B. Priestley
    Foto (p/b) de Arthur Edeson
    Elenco: Melvyn Douglas, Raymond Massey, Gloria Stuart, Charles Laughton, Lillian Bond, Boris                    Karloff, Ernest Thesiger, Eva Moore, Brember Wills, Elspeth Dudgeon.

    Um arrepio de medo ou um sorriso maroto ?  Esta realização do versátil James Whale - tanto podia assinar a primeira "A Ponte de Waterloo" e o musical "Magnólia" (Show Boat) como "Frankenstein"
ou "O Homem Invisível" - nos oferece tais opções.  Adapta com brilho sardônico  um original de J.B. Priestley e é entretenimento sombrio dos bons, recebido com frieza  por público e crítica em sua estréia. Hoje é merecidamente cultuado como clássico. Nada como o tempo para ajustar as coisas.
Colhidos por violento temporal nas estradas do país de Gales, um casal (Raymond Massey & Gloria Stuart) com um amigo de carona (Melvyn Douglas), e o par formado por um viúvo rico (Charles Laughton) e uma alegre corista (Lillian Bond) conseguem abrigar-se numa velha casa. Mas que gente mais louca a ocupa! Um idoso efeminado (Ernest Thesiger), sua irmã surda de fervor religioso fanático (Eva Moore) e um assustador mordomo (Boris Karloff), que, dizem, é um perigo quando bebe... Para completar, há mistérios na residência, aos poucos descobertos pelos visitantes - as presenças escondidas do acamado proprietário de 102 anos (feito por uma mulher, Elspeth Dudgeon,
mas creditado como "John" Dudgeon) e seu filho piromaníaco (Brember Wills), irmão dos dois outros antes citados. As tensões aumentam quando o mordomo, após servir o jantar, se refugia na cozinha e "entorna" o que pode, ameaçando a jovem e bonita senhora casada.







O mordomo embriagado (Karloff) apavora a bela Gloria Stuart (longe de ser a velhinha de "Titanic")

Num duelo verbal entre cavalheiros, o galante "carona" dissuade o viúvo endinheirado a ter alguma posse sobre a simpática corista e os dois se enamoram. Mas o velho incendiário está solto, disposto a
por fogo na casa, é preciso confiá-lo ao truculento mordomo... Um elenco de excelentes intérpretes (ingleses como o diretor Whale) dá conta dos variados personagens sem perder o "timing" alucinado
das situações, assinalando-se a estréia algo discreta de Charles Laughton em Hollywood e a participação menor, mas não menos impressiva (é o primeiro nome dos créditos) do grande Boris Karloff, vindo do sucesso de "Frankenstein".

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

"A ÓPERA DOS TRÊS VINTÉNS"

(Die 3 Groschenoper)
Direção de G. W. Pabst, 1931
Texto de Bertolt Brecht
Adaptação de Béla Balàsz, Léo Lania & Ladislaus Vajda
Música de Kurt Weill
Foto (p & b) de Fritz A. Wagner
Elenco: Rudolf Forster, Carola Neher, Reinhold Schünzel, Lotte Lenya, Fritz Rasp, Valeska Gert,
Ernst Busch e outros.


Forster (Mackie), Schünzel & Carola Neher: o comissário de polícia entre os noivos na cerimônia.

"A Ópera dos Três Vinténs", de G.W. Pabst ("A Caixa de Pandora") é uma muito bem sucedida versão do espetáculo teatral de Bertolt Brecht, com música do imprescindível parceiro Kurt Weill
(o autor de "September Song", "Speak Low" e outras belezas). Consta que Pabst se surpreendeu com o comentário de Adolf Hitler de que o filme "convinha bastante à desmoralização do inimigo inglês", o que lhe rendeu um certo afeto por parte do Führer, que, não obstante, incluía sem que ele imaginasse o reverso da moeda. De fato, focaliza uma Londres decadente, cheia de miséria, assaltos
e corrupção, tendo um astucioso bandido, Mackie Navalha - o "Mack the Knife" da música - como ponte entre duas camadas sociais, a marginalidade e as autoridades constituídas. Brecht e, por conseguinte, Pabst traçam um perfil cínico e inteligente desses polos extremos, que convergem para acordos escusos entre a polícia e a bandidagem. E Pabst faz bom Cinema, embora oriundo do teatro.
A atriz e cantora Lotte Lenya (aqui ainda Lenja), a assustadora vilã de "Moscou contra 007" muito adiante e mulher de Kurt Weill na vida real, marca no papel secundário da prostituta Jenny, louca de amor pelo indiferente e mulherengo Mackie (muito bem defendido pelo ator Gustav Forster) - e, na verdade, todo o elenco principal atua com competência. Quando Mackie se vê na contingência de fugir para não ser pego, deixa sua mulher (Carola Neher), a filha do "fabricante" de mendigos (Fritz Rasp), cuidando de seus negócios e esta o faz prosperar, comprando um banco e com isso fazendo da
atividade de roubos e assaltos uma coisa superada.
"A Ópera dos Três Vinténs" importa ainda para dimensionar-se o talento de Pabst antes de aceitar as benesses do nazismo, quando perdeu seu prestígio e deixou de ter o controle autoral sobre seus trabalhos antes tão respeitados. Só veio a reerguer-se numa espécie de "mea culpa" em meados dos anos 50 e próximo ao fim de sua carreira, com "O Ato Final" (Der Letze Akt), onde mostrava os podres de Hitler, sobretudo na memorável seqüência da inundação de Varsóvia. Mas já era tarde para
voltar a ser o que era. 
Nos anos 80 teve uma adaptação brasileira irregular na "Ópera do Malandro", de Chico Buarque, onde Jenny ("Geni") era um homossexual da periferia ("Joga pedra na Geni/ Joga bosta na Geni/ Maldita Geni !") na antiga Lapa. A comparação só beneficia mais o filme de Pabst, Brecht & Kurt Weill.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

"CONTOS DA LUA VAGA"


(Ugetsu Monogatari)

Direção de Kenji Mizoguchi, 1953

Roteiro de Matsutaro Kawaguchi & Yushitesti Yoda

Foto (p & b) de Kazuo Miyakawa

Música de Fumio Hayasaka

Elenco: Masayuki Mori, Machiko Kyo, Kanuyo Tanaka, Sazae (Eitaro) Ozawa, Mitsuko Mito.


No Japão feudal do século 16, a guerra civil e suas conseqüentes barbáries obrigam dois modestos casais vizinhos a deixar suas casas e tentar novo caminho pelo mar. São eles um caprichoso oleiro (Masayuki Mori, o intérprete de "O Idiota"), um estouvado pretendente a samurai (Eitaro Ozawa) de armadura e espada compradas na feira e suas respectivas mulheres (a doce Kanuyo Tanaka e a mais ardente Mitsuko Mito). O mar, contudo, apresenta o perigo dos piratas e o grupo desiste de seu intento. Em breve o oleiro se acha vendendo suas belas peças de cerâmica para uma jovem nobre
(Machiko Kyo), seduzido por ela e, esquecendo-se da esposa e do pequeno filho, habitando seu solar,
onde com ela se casa e desfruta de incontáveis prazeres. A descoberta de que se deixou enfeitiçar por
um fantasma que, sendo do Mal, precisa ser exorcizado, faz despertar no homem seu arrependimento
e seu repúdio a tal situação, embrenhando-se na mata para tentar a volta a casa.
Kenji Mizoguchi, um dos mais respeitados nomes do Cinema japonês desde a era do silencioso, apóia
-se em duas ou três histórias sobrenaturais de um eminente especialista no gênero para este seu muito aplaudido trabalho. Ao mesmo tempo, coloca em vivas imagens a violenta realidade que é cenário do filme fora da "morada de sonhos" de cunho fantasmagórico, com a guerra civil propiciando saques, a dissolução de famílias e a prostituição de mulheres (de que é vítima, após ser rudemente violentada por rebeldes, a esposa do vizinho e amigo fanfarrão). Dois novos excelentes desempenhos, tanto de Masayuki Mori no protagonista como de Machiko Kyo no seu ambíguo papel mágico, consagram essa dupla proveniente do super clássico "Rashomon" (1950) de Akira Kurosawa, junto a um elenco harmonioso e soberbas fotografia (de Kaziro Miyagawa) e música (de Fumio Hayasaka), ambas de beleza tipicamente nipônica. Um filme certamente merecedor do prestígio que até hoje mantém.

    A volta ao lar: Genjuro, com orações de Buda no corpo, aturdido com acusações de ser um fugitivo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

"A FACE DO OUTRO"

    O monstro e o médico (Tatsuya Nakadai & Eiji Okada) na concepção do talentoso Hiroshi Teshigahara.

    (Tanin no Kao)

    Direção de Hiroshi Teshigahara, 1966.

    Elenco: Tatsuya Nakadai, Eiji Okada, Eiko Muramatsu, Machiko Kyo, Etsuko Ichihara

    Bela ficção do cinema japonês, do realizador da então nouvelle-vague de lá e do inesquecível
    "A Mulher da Areia". Seu protagonista é o excelente Tatsuya Nakadai, descoberto por Akira
    Kurosawa ("Yojimbo", "Sanjuro") e orientado por este a substituir Toshiro Mifune quando da
    sentida separação de ambos após "O Barba-Ruiva" (1965), destacando-se em "Kagemusha" 
    e "Ran". Vítima de um acidente que o desfigurou. Nakadai procura um jovem psiquiatra (Eiji 
    Okada) que agora se dedica a minimizar os traumas de seus pacientes com enxertos sintéticos
    de membros danificados. Mas o caso de Nakadai é mais delicado - ele precisa de um rosto,
    para reconquistar a mulher (Machiko Kyo, de "Rashomon") e sua sólida posição social. Uma vez
    tentada com êxito uma máscara perfeita e usada com cuidado, a incomodidade de sua        
    preservação e as angústias do paciente quanto à sua identidade o conduzem a uma nova e mais 
    séria crise.
    Muitos se lembram de filmes como o americano "O Segundo Rosto" (também de 1966), de John
    Frankenheimer, ou mesmo do notável grand guignol francês "Os Olhos Sem Rosto" (1960), de
    Georges Franju, para discutir o tema da individualidade que Teshigahara coloca com inteligência,
    domínio cinematográfico e muita propriedade autoral. Dá margem, inclusive, para o ingresso de
    outros personagens - a esposa ardilosamente seduzida com a utilização da máscara, o casal de
    irmãos que cede ao impulso incestuoso - sem perder o prumo.

sábado, 8 de novembro de 2014

DOIS KUROSAWA MAL CONHECIDOS

    Toshiro Mifune e Masayuki Mori, notáveis na versão oriental do romance clássico de Dostoiewsky

    O IDIOTA (Hakuchi) - Direção de Akira Kurosawa, 1951  - Roteiro de Kurosawa & Eijiro Hanita
    - Elenco: Masayuki Mori, Setsuko Hara, Toshiro Mifune, Yoshiko Kuga, Chieko Higashiyama.
   Amante dos textos de Shakespeare, Dostoiewsky, Brecht e outros não japoneses, Akira Kurosawa
   logrou um grande êxito transportando-os para a tela, mas foi subestimado em seu próprio pais. Em
   1951, foi a vez do consagrado romance de Fyodor Dostoiewsky, filmado com surpreendente
   fidelidade na essência, ao lado de variações de cunho mais nipônico. Na iminência de ser fuzilado
   na Guerra, um homem (Masayuki Mori, em atuação comovente) escapa por milagre, mas adquire
   uma grande perturbação psíquica e uma espécie de epilepsia crônica. Isso não impede de vir a
   apaixonar-se mais tarde por uma bela concubina (Setsuko Hara) e tentar disputá-la com um amigo
   violento e irascível (Toshiro Mifune), seu amante, e conquistar o amor "difícil" de uma prima
   ciumenta ((Yoshiko Kuga), ambas o admirando por suas singulares bondade e pureza de coração.
   Contudo, a tragédia se instaura quando o bruto mata a desejada companheira.. Um dos filmes de
   Kurosawa menos conhecidos do público ocidental (apesar da repercussão de "Rashomon", sua
   obra-prima feita um ano antes), "O Idiota" se salienta na vigorosa filmografia do cineasta por sua
   dramaticidade mais intimista, sua perfeita construção e pelas esplêndidas performances do seu
   muito harmonioso elenco. A extrema generosidade e paixão do protagonista pelos seres humanos
   sugere a figura de Jesus, mas o roteiro insere algumas conotações budistas para cor local.

   O BARBA-RUIVA (Akahige), Akira Kurosawa, 1965 - Roteiro de Kurosawa e outros -                      Foto (p & b) de Asakasu Nasai & Takao Saito - Elenco: Yuzo Kayama, Toshiro Mifune, Terumi
   Niki, Tsutomo Yamazaki, Reiko Dan, Yoko Naito, Kyoko Kagawa.
   Este filme muito longo (185 minutos), com duas partes e até um intervalo, assinalou o fim da
   rica parceria de Kurosawa com seu ator favorito, Toshiro Mifune, infelizmente com danos para a
   longa amizade. Mifune é aqui um importante médico que cuida de enfermos da população carente
   na Tóquio do século 19 em condições precárias. Um jovem recém-formado (Yuzo Kayama), de
   boa família e estudos avançados, vai ter na clínica do chamado "Barba Ruiva" a contragosto,
   mostrando-se rebelde e inadaptável. A sucessão de casos delicados que acompanha com o médico,
   na função de seu assistente, aos poucos o vai transformando e o fazendo reconhecer no "Barba-
   Ruiva" um homem e um profissional de exceção. Pesa favoravelmente quanto a isso seu empenho
   em curar uma menina (Terumi Niki) de seu abismo mental, causado pelos maus tratos de que é
   vítima na casa de uma megera que a emprega. Irônica e maldosamente comparado por americanos
   imbecis de um "Plantão Médico" japonês, o filme, com sua narrativa episódica, flashbacks até
   dentro de flashbacks, no desenrolar dos diversos casos clínicos, pode não estar à altura de outros
   trabalhos maiores de Kurosawa, mas ainda assim apresenta uma visão convincente da infelicidade
   da população mais humilde, com algumas passagens tocantes e bons tipos como a menina (que fica
   meio encantada pelo jovem médico) e o garotinho ladrão (que tenta salvar a família da miséria). De
   qualquer modo, o habitual humanismo de Kurosawa não funciona aqui muito bem. A atriz Kyoko
   Kagawa (com Kurosawa em "Ralé") faz o breve e algo artificial papel da "Louva-Deus", a mulher
   louca que seduz e apunhala os homens a quem conquista. Bela foto em preto-e-branco.

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"AQUELE CASO MALDITO"

    O inspetor-chefe (Pietro Germi) interroga a aflita jovem ex-criada (Claudia Cardinale) da vítima.

(Un Maledetto Imbroglio)

Direção de PIETRO GERMI

Roteiro de Pietro Germi e outros

Música de Carlo Rustichelli

Foto (p & b) de Leonida Barboni

Elenco: Pietro Germi, Claudia Cardinale, Claudio Gora, Franco Fabrizi, Eleonora Rossi Drago, Saro
              Urzì, Nino Castelnuovo, Cristina Gajoni.

Confusão num distrito policial italiano. Um assalto à casa de homossexual idoso é seguido de outro, agravado pelo assassinato de senhora casada (Eleonora Rossi Drago), estando seu marido (Claudio Gora) ausente. Inúmeras pistas e vários suspeitos - o noivo (Nino Castelnuovo) da criadinha da casa, (Claudia Cardinale), o próprio marido da madame, seu discutível "primo" malandrão (Franco Fabrizi), et al. - perturbam o íntegro inspetor-chefe (Pietro Germi) e seus auxiliares, com uma única
e inevitável solução.
Tiro certeiro do cineasta Pietro Germi no gênero "detective story" consagrado pelos americanos, mas
aqui ganhando um sabor peninsular. Germi, entretanto, com o sucesso de "Divórcio à Italiana"(1962)
se dedicaria a comédias satíricas de costumes ("Seduzida e Abandonada", "Alfredo, Alfredo"), todas a meu ver inferiores a este filme impecável. É a Itália na transição do néo-realismo para a trama burguesa moderna o que ao filme interessa mostrar. Com esplêndida música de Carlo Rustichelli (inserindo uma linda canção sua,"Sinnò me Moro", como tema cantado da personagem de Claudia Cardinale, além de um belo comentário dramático), sensível preto-e-branco de Leonida Barboni e Germi dominando sua técnica à perfeição, alinha-se um elenco harmonioso. Nele se salientam o ótimo Claudio Gora, uma Eleonora Rossi Drago pela primeira vez caracterizada de mulher mais velha, Franco Fabrizi, sempre à vontade em tipos cínicos e amorais, e um divertido Saro Urzì no veterano ajudante do inspetor. Muito bom e simpático nesse papel, Germi logo a seguir representaria um equivalente em "O Batom", curiosa estréia de Damiano Damiani como diretor. Final emocionante, com Cardinale correndo atrás do carro de polícia, envolvida em poeira e sendo deixada aos poucos pela câmera e pela dolência de "Sinnò me Moro".


quinta-feira, 30 de outubro de 2014

CRITIQUINHAS... (2)


O SALÁRIO DO MEDO (Le Salaire de la Peur), Henri Georges Clouzot, 1953. Quem pensa que o único suspense do cineasta francês Henri Georges Clouzot é o memorável "As Diabólicas" se engana. Dois anos antes ele surpreendia com o noir diferenciado deste thriller empolgante. Em paisagem primitiva da América do Sul, paraíso de foras-da-lei e contraventores de diversas espécies, quatro homens são designados por ordens americanas do transporte de nitroglicerina a outra região
de atividade petrolífera. São eles dois franceses (Yves Montand e o mais idoso Charles Vanel), um italiano gordo de bons músculos (Folco Lulli) e um alemão meio antipático (como sabe ser Peter van Eyck), viajando em dois caminhões. A arriscadíssima missão apresenta dificuldades e obstáculos vários, que os homens enfrentam por uma polpuda soma em dinheiro, com trágicas conseqüências.
Não promete muito o início, retratando os atrasados costumes do local exótico (músicas, danças e outros aspectos selvagens) ou o apego romântico-sensual de uma empregada branca (Vera Clouzot, mulher do diretor) por Montand. Mas o filme logo se levanta com o início da tarefa dos quatro e daí para frente é só adrenalina e suor na testa, com brilhante condução de Clouzot e excelentes desempenhos de Vanel, Lulli e do herói Montand. Vera Clouzot, ainda imatura (iria revelar-se em "As Diabólicas"), detém um papel fraco, embora esteja visualmente mais agradável. O filme é considerado com justiça um clássico do cinema francês e, muitos anos depois, Hollywood providenciou-lhe um remake dirigido por William Friedkin, provavelmente bem inferior.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

CRITIQUINHAS A TOQUE DE CAIXA

Amigos, a dissolução do Orkut atordoou a todos os seus membros restantes (e que nem eram tão poucos assim). Eu, por exemplo, me ausentei do meu próprio blog, buscando uma alternativa. Outros fizeram sua transferência para as demais redes sociais, concorrendo para a lamentável separação de amigos e grupos. Mantive o blog para os que quisessem ainda se comunicar comigo, mas como me ausentei, isso também não funcionou muito bem e eu entendo. Destaco aqui a sugestão do membro/ seguidor/ bom camarada Anthero Luiz para uma tarefa um tanto mais leve para mim no momento - um pequeno resumo dos filmes que venho assistindo ultimamente. Assim, abraço a idéia do Anthero
como se abraçasse a ele próprio e vamos que vamos, obrigado.

A ALDEIA DOS AMALDIÇOADOS (The Village of the Damned), Wolf Rilla, 1960. Misteriosa ocorrência num pequeno povoado mantém desacordada por horas a população. Quando todos despertam, algo mais estranho ainda - as mulheres locais estão grávidas ! Trata-se de uma invasão alienígena, onde crianças de outro mundo, com inteligência e percepção agudíssimas, desafiam um maduro professor (George Sanders) a destruí-las. Ressalte-se a interpretação do pequeno Martin Stephens (o garoto de "Os Inocentes") em outro papel marcante. Direção correta de Wolf Rilla e boa chance para o veterano George Sanders. Com Barbara Shelley na esposa do professor e mãe a contragosto do líder Stephens. Um bom e sofisticado filme de terror/ ficção.

    Martin Stephens (primeira fila, à extrema direita) e sua turminha de fedelhos mal intencionados.



terça-feira, 16 de setembro de 2014

"ANJO DO MAL"


  Richard Widmark & Jean Peters : uma bolsa roubada e um amor que nasce entre tapas e beijos

(Pickup on South Street)
Direção e roteiro de Samuel Fuller, 1953
Foto de Joe MacDonald
Música de Leigh Harline
Elenco: Richard Widmark, Jean Peters, Thelma Ritter, Richard Kiley, Murvyn Vye, Willis Bouchey.

Energético noir realizado por Samuel Fuller na era da Guerra Fria e do macarthismo, onde naturalmente os comunistas são 
os vilões. Em pleno metrô nova-iorquino, batedor de carteiras (Richard Widmark) rouba por engano de uma bela jovem (Jean Peters) um microfilme contendo segredos do estado americano que muito interessam aos "vermelhos". Daí começam os apuros da moça, forçada a um contato com o ladrão pelo ex-amante (Richard Kiley) pelas pressões comunistas e tudo e todos sendo observados por policiais que conhecem bem Widmark, recém-saído da prisão. Um inesperado e tenso romance entre Widmark e Peters dá novos e eletrizantes rumos à obtenção do microfilme roubado.
Modelo exemplar do ótimo cinema de Fuller, "Anjo do Mal" agrupa elementos de violência, sedução, desconfianças e riscos em alto nível com produção bem cuidada da Fox (elenco, foto em preto-e-branco, música) que permite extravasar o talento dos envolvidos. Uma personagem extremamente humana - Moe (Thelma Ritter), informante pobre e com a idade já avançada - dá um tom patético à inquieta narrativa, valorizada pela atriz. A bonita Jean Peters, sexy como em poucas vezes, desfruta bem de uma de suas melhores oportunidades na tela, ainda que tenha apanhado muito de seus parceiros, sobretudo de Richard Kiley em passagem memorável.

sábado, 6 de setembro de 2014

VERSÁTIL LANÇA NOVA SELEÇÃO DE CLÁSSICOS COM "FILME NOIR"


A cuidadosa Editora Versátil, responsável pelo recente lançamento de "Obras-Primas do Terror", com
seis títulos inéditos em 3 DVDs numa mesma embalagem, nos oferece agora "Filme Noir", outra coleção muito atraente nos mesmos moldes, com filmes representativos do apreciado gênero. Os maiores destaques deverão ir para "Volta ao Passado", de Jacques Tourneur, com Robert Mitchum e Jane Greer no que é considerado um dos expoentes do estilo, o revolucionário e apocalíptico "A Morte num Beijo", de Robert Aldrich, com Ralph Meeker, e o excelente "Anjo do Mal", de Samuel Fuller, com Jean Peters e Richard Widmark. Mas outros três filmes (que ainda não conheço) poderão
surpreender, já que também mereceram elogios. A Versátil, como da outra vez, promete um kit de 6 minipôsteres acompanhando o importante lançamento. Vamos prestigiar.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

"A NOITE DO DEMÔNIO"

(Curse of the Demon - aka Night of the Demon)
Direção de Jacques Tourneur, 1957
Roteiro de Charles Bennett & Hal E. Chester
Foto (p & b) de Edward (Ted) Scaife
Elenco: Dana Andrews, Niall Mac Ginnis, Peggy Cummins, Athene Seyler, Maurice Denham, Liam Redmond, Brian Wilde.

O grande expoente "B" dos filmes de terror.  Psicólogo americano cético (Dana Andrews) chega à Inglaterra para desmistificar em conferência um culto ao diabo que vem tomando vulto na mídia por misteriosas mortes. Embarcando com uma jovem (Peggy Cummins), vem a saber que ela ali se encontra 
em virtude de trágico acidente que matou seu tio (Reginald Denham) e que tudo se liga a um provável
bruxo de meia-idade (Niall Mac Ginnis), enriquecido com suas devoções. Encontrando casualmente o
homem numa biblioteca pública, este o convida para que visite sua casa, onde testemunha uma inesperada
tempestade como prova dos poderes sobrenaturais do anfitrião. Advertido de que irá morrer no prazo de três dias caso não interrompa suas investigações, tudo leva a crer que o psicólogo corre risco de vida desde que o estranho sujeito lhe entregou um pergaminho diabólico.
Discípulo (no início da carreira) do criativo produtor Val Lewton, que inaugurou em filmes baratos o horror
implícito (feito de sugestões e climas), Tourneur se propôs neste filme a homenagear o mestre. Mas foi sabotado pelos produtores, que exigiram um descomunal dragão - representando o demônio - nas cenas de maior suspense. Tal fato desgostou o diretor, pondo por terra o tributo a Lewton, mas o mais curioso é que o filme ganhou uma força inusitada com o artifício, assumindo proporções de terror ainda mais assustador. Juntem-se ao fato a mestria com que é conduzido, com uma admirável atuação sinistra do obscuro Niall Mac Ginnis e diversos momentos de brilho (a discutível "sessão espírita" a que Andrews & Cummins comparecem, a citada tempestade em meio a um inocente Halloween para crianças, a transformação do gato numa fera, a hipnose a que se submete em público um paciente traumatizado, além do final com a troca nervosa do pergaminho no trem). Ótima, a foto de Ted Scaife usando com perícia o claro-escuro, e um maduro Dana Andrews em segura interpretação. O desempenho de Athene Seyler na mãe protegendo o filho satânico e freqüentadora das "séances" é divertida e prazerosa. Altamente recomendável aos fãs.






terça-feira, 12 de agosto de 2014

VERSÁTIL LANÇA AUSPICIOSAMENTE "OBRAS-PRIMAS DO TERROR"



Deleitando os muitos fãs do gênero, a Versátil, que se impôs como a nossa mais confiável distribuidora de DVDs, está lançando no capricho "Obras-Primas do Terror", uma criteriosa seleção de filmes clássicos da especialidade. São 3 DVDs agrupando 6 filmes em embalagem no feitio de 'book" e que ressaltam diretores, atores e tendências do terror na tela. No primeiro disco, temos o quase desconhecido "O Chicote e a Carne" (1963), do italiano Mario Bava, com Christopher Lee e Daliah Lavi, e o melhor filme da série Edgar Allan Poe realizada por Roger Corman, o excelente "A Orgia da Morte" (1964), com Vincent Price e belíssima foto a cores de Nicolas Roeg. O segundo DVD reúne a famosa dupla Boris Karloff e Bela Lugosi
numa produção do especialista Val Lewton, "O Túmulo Vazio" (1945), dirigido por um Robert Wise nos seus primeiros passos, e o pioneiro dos filmes de terror em episódios, "Na Solidão da Noite" (1945), com diretores diversos e que traz Michael Redgrave no segmento do ventríloquo e seu boneco, direção do brasileiro Alberto Cavalcanti. Finalmente, o terceiro tem o destaque absoluto de "A Noite do Demônio" (1957),com Dana Andrews, em que Jacques Tourneur procurou homenagear Val Lewton, que o lançou,  e o original "A Aldeia dos Amaldiçoados" (1960), história insólita dirigida por Wolf Rilla e com George Sanders e Barbara Shelley. Coleção imperdível para os fãs, acentuando-se que nenhum dos títulos foi lançado antes em DVD.

                   
           

terça-feira, 5 de agosto de 2014

"A MORTE ESPERA NO 322"

Kim Novak - um "new look" para as loiras


(Pushover)
Direção de Richard Quine, 1954
Roteiro de Roy Huggins
Foto (p & b) de Lester H. White
Música de Arthur Morton
Elenco: Fred Mac Murray, Kim Novak, Phil Carey, E G. Marshall, Dorothy Malone, Allen Nourse.

UM VACILO E TUDO PERDIDO
Surpreendente noir de Richard Quine, já se afirmando como diretor e lançando
oficialmente sua estrela Kim Novak, deusa loira de cabelo curtinho e sem
qualquer pretensão de ser "uma nova Marilyn" como tantas outras (bem
pouco felizes). Kim é uma femme fatale meio que por acaso, garota de um
assaltante de banco procurado pela polícia. Só que o tira Fred MacMurray, um
dos policiais que farejam seu apartamento, se deixa envolver por seus encantos,
matando o cara e aceitando a idéia de ficar com ela mais o dinheiro roubado. E
como ficam os policiais seus companheiros? Hummm, a dupla vai ter que despistar
muito e viver de evasivas seu romance secreto.... Um bom filme esquecido do
subestimado Quine, depois se especializando mais em comédias interessantes como
"Sortilégio de Amor", também com Kim. Assusta um pouco quando parece
virar "Janela Indiscreta" (binóculo para espionar o apê da loira e o
de sua vizinha Dorothy Malone), mas os filmes são do mesmo ano e isso pode ser
uma coincidência. Boa foto p & b do desconhecido (ao menos pra mim) Lester
H. White e preciso roteiro de Roy Huggins. O também  novakiano Morris Stoloff
("Férias de Amor"/ Picnic; "Lágrimas de Triunfo" / Jeanne Eagels) rege a boa música 
composta por Arthur Morton.